Entrevista exclusiva para a Redigir
A escrita é uma habilidade fundamental na formação integral de qualquer indivíduo. No entanto, ensinar a escrever, sobretudo no Ensino Fundamental, é desafiador. Para explorar esse tema, a Redigir entrevistou Ana Loureiro, uma das mais respeitadas especialistas em Educação no Brasil.
Ana Loureiro é graduada em Letras pela Universidade de Brasília, com mestrado e doutorado pela Universidade Católica do Rio de Janeiro. Sua impressionante carreira inclui a direção acadêmica de renomados colégios da rede jesuíta. Atualmente, exerce a função de assessora pedagógica na Rede Jesuíta de Educação Brasil. Em 2010, por sua brilhante atuação no segmento, destacou-se com a “Menção Honrosa” da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Nesta entrevista, conduzida por Rodrigo Simões, Mestre em Educação e Diretor Executivo da Redigir, Ana Loureiro compartilha insights valiosos não só a respeito do papel da tecnologia na Educação, como também sobre o engajamento dos alunos, especialmente os do Ensino Fundamental, no processo de aprendizagem da escrita.
A Entrevista
Rodrigo Simões: Professora Ana Loureiro, como a senhora avalia o intercâmbio de conhecimento entre educadores e pesquisadores nos últimos anos, considerando-se as novas questões curriculares e o impacto da tecnologia na mediação do ensino-aprendizagem?
Ana Loureiro: Essa é uma questão fundamental para entendermos o panorama atual da Educação. É preciso desmistificar a ideia de que a academia apenas produza conhecimento, e a escola apenas o aplique. Na realidade, esse intercâmbio é imprescindível, e a escola também é um espaço de produção de conhecimento.
Minha própria trajetória exemplifica isso. Iniciei como professora de Língua Portuguesa na Educação Básica, depois fiz mestrado e doutorado em Educação, mas sempre com o objetivo de reverter esses conhecimentos para a escola. Pesquisei temas pertinentes à realidade escolar, buscando contribuir para melhorar a Educação Básica.
Rodrigo: E o que deve ser considerado como basilar para desenvolver nos alunos tanto o gosto pela escrita quanto a competência escritora?
Ana Loureiro: Esse é um assunto de grande importância, especialmente no Ensino Fundamental, que costumo chamar de "filho do meio" da Educação. É uma fase crucial, cheia de possibilidades formativas, em que tudo está por se estabelecer. Para desenvolver o gosto pela escrita e a competência escritora, devemos começar pela leitura. É fundamental, primeiro, desenvolver o gosto pela leitura e a competência leitora. A escrita vem depois, não são atividades simultâneas. A competência escritora é uma das mais desafiadoras a ser desenvolvida na escola. Ela demanda um esforço cognitivo e físico-motor significativo. Por isso, é necessário primeiro explorar bastante a leitura, com boa literatura, contação de histórias, rodas de leitura e cirandas de livros. Nesse momento, o livro físico é muito importante para que os estudantes se apaixonem por eles. Depois, a escrita pode ser introduzida de modo mais natural. A escrita, de início, deve ser mais livre, menos cerceadora. É preciso ter um certo domínio da leitura, antes de começar a escrever mais sistematicamente. Um ponto crucial é a diversidade de textos. Devemos expor os estudantes do Ensino Fundamental a diferentes gêneros textuais – e não apenas da nossa matriz europeia, mas também de matrizes africanas e indígenas, com seus contos e lendas. Isso amplia o repertório cultural e linguístico, enriquecendo a capacidade de expressão escrita.
Rodrigo: Isso levanta uma questão nevrálgica sobre o momento certo para introduzir a escrita mais sistemática. Quando seria esse "depois" ideal?
Ana Loureiro: Não há uma série específica – o professor vai saber, com sensibilidade, perceber esse momento. A fase da alfabetização deve ser muito mais focada na leitura do que na escrita. A escrita vem um pouco depois, quando já houver um certo domínio da leitura. É importante que o início da escrita seja mais livre. O objetivo é que, apesar do esforço, a escrita seja algo prazeroso. Geralmente, por volta do 3º ou 4º ano do Ensino Fundamental, os estudantes já têm uma base de leitura mais sólida, e podem começar a se aventurar mais na escrita. Mas é crucial lembrar que o aluno tem seu próprio tempo, seu próprio ritmo, e o professor deve estar atento a essas diferenças. Uma estratégia interessante é começar com atividades de reescrita ou reconto de histórias conhecidas. Isso permite que eles se concentrem na estruturação do texto e na expressão escrita, sem a pressão de criar uma história do zero.
Rodrigo: E quanto à questão da escrita manuscrita versus a digitada? Como a senhora vê essa transição ou essa coexistência?
Ana Loureiro: Escrever à mão aciona determinadas sinapses no nosso cérebro, diferentes das ativadas quando digitamos. Para crianças, em especial as do Ensino Fundamental I, é importantíssimo desenvolver a habilidade motora da escrita à mão. No entanto, isso não significa que devamos ignorar a escrita digital. A partir do meio do Ensino Fundamental I, por volta do 4º ou 5º ano, podemos começar a introduzir a produção de textos no computador. O ideal é que haja um equilíbrio, um "E" e não um "OU". A criança deve não apenas continuar escrevendo à mão, como também aprender a usar as ferramentas digitais. Lembremos que a leitura em tela é diferente da leitura em papel. O livro físico oferece uma experiência única que não deve ser substituída, mas complementada pela leitura digital. Cada suporte tem suas vantagens e desvantagens, e é essencial que aprendam a navegar em ambos os mundos. Por exemplo, a escrita à mão é crucial para o desenvolvimento da coordenação motora fina e da conexão entre o pensamento e a expressão física. Já a escrita digital oferece ferramentas de edição e revisão, que podem ser muito úteis no processo de aperfeiçoamento do texto. O importante é que a introdução da tecnologia não seja feita de forma abrupta ou como uma substituição completa da escrita manual, e sim como uma ferramenta adicional que amplia as possibilidades de expressão escrita.
Rodrigo: Falando em formação de professores, como está a preparação dos docentes para lidar com essa multiplicidade de gêneros textuais e, acima de tudo, com a emergência da tecnologia na sala de aula?
Ana Loureiro: A formação de professores é crucial, principalmente diante dos desafios atuais, como as tecnologias digitais e a inteligência artificial. O professor, especialmente o de Língua Portuguesa, precisa estar em constante formação. É necessário que o professor tenha conhecimento e repertório para lidar com essas novas ferramentas. Por exemplo, ao usar ferramentas de IA, como o ChatGPT, é preciso ter o conhecimento para avaliar criticamente o conteúdo gerado. O professor precisa ser capaz de orientar os alunos sobre o uso ético e eficaz dessas tecnologias. A formação continuada, ou formação em serviço, é essencial para todos os profissionais. Isso inclui não apenas mestrados e doutorados, mas também especializações, MBAs e outros cursos relevantes para sua área. Um aspecto importante da formação de professores é a prática reflexiva. Não basta apenas aprender novas técnicas ou ferramentas; é necessário também refletir constantemente sobre como essas novidades se aplicam ao contexto específico de cada sala de aula, e como elas podem ser usadas para melhorar o aprendizado. Os professores precisam estar preparados para orientar seus alunos sobre o uso responsável e crítico da tecnologia, principalmente quando se trata de produção e consumo de conteúdo escrito.
Rodrigo: Como lidar com a avaliação escolar em texto, sobretudo no ambiente fluido do Ensino Fundamental?
Ana Loureiro: A avaliação é um tema delicado, especialmente no Ensino Fundamental. O ponto de partida deve sempre ser os objetivos de aprendizagem. O professor precisa se perguntar: "o que eu quero que meu aluno aprenda com essa atividade?" No Ensino Fundamental, sou a favor de uma correção mais livre, principalmente nas séries iniciais. O foco deve ser em escrever muito, com alguns apontamentos do professor, mas sem uma grade rígida de correção. O pior que se pode fazer numa aula de produção de texto é que ela gere punição ou perda de nota, pois isso pode travar o aluno, e fazê-lo ter medo de errar. O erro deve ser visto como uma oportunidade de aprendizagem, não como algo a ser punido. É a partir dos erros que o professor pode identificar as áreas que precisam de mais trabalho, e então propor atividades para sanar essas dificuldades. A avaliação deve ser um processo que incentive a produção e a criatividade, e não que as restrinja. Por isso, é importante diversificar os gêneros textuais trabalhados e criar oportunidades para que os alunos escrevam com propósito e prazer. Uma estratégia eficaz é o uso de portfólios de escrita. Isso permite que os alunos e professores acompanhem o progresso ao longo do tempo, celebrando as melhorias e identificando áreas que ainda precisem de atenção; também é uma ótima forma de envolver os pais no processo de aprendizagem, mostrando o desenvolvimento da escrita de seus filhos de modo concreto. Outra abordagem positiva é a avaliação entre pares. Isso não apenas ajuda os alunos a desenvolverem habilidades de revisão e edição, mas também os faz refletir sobre seus próprios textos ao analisar o trabalho dos colegas.
Rodrigo: Professora, o que fazer e o que não fazer quando o assunto é ensino de texto no Ensino Fundamental?
Ana Loureiro: No Ensino Fundamental, é importante começar pela narrativa – explorar diferentes tipos de narrativas é um bom ponto de partida, porque os estudantes gostam de histórias. À medida que avançam para o segundo ciclo do Fundamental, podemos introduzir outros gêneros que atraiam essa faixa etária, como ficção científica e realismo fantástico. O importante é partir da realidade e do interesse dos alunos. A escrita é uma prática social, então devemos trabalhar com diversos gêneros que façam sentido para eles: cartas, e-mails, resenhas, notícias de jornal etc. Uma boa estratégia é a criação de projetos que envolvam a escrita de forma significativa. Quanto ao que não fazer, é fundamental evitar o excesso de regras gramaticais descontextualizadas. A gramática deve ser trabalhada dentro do contexto da produção textual, e não como um conjunto de regras abstratas para memorizar. Também é importante não limitar a escrita a formatos muito rígidos ou a temas desestimulantes para os alunos. Por fim, não devemos subestimar a capacidade criativa dos estudantes – quando damos a liberdade e um ambiente de apoio, eles nos surpreendem com sua capacidade de expressão e imaginação.
Rodrigo: Gostaria que a senhora compartilhasse algumas estratégias práticas que os professores possam implementar em sala de aula para melhorar o ensino da escrita no Ensino Fundamental.
Ana Loureiro: Com prazer, Rodrigo. Aqui estão algumas estratégias que considero eficazes:
Escrita diária: Estabeleça uma rotina de escrita diária, mesmo que seja por apenas 10 minutos. Isso ajuda a desenvolver o hábito e a fluência na escrita.
Diários de leitura: Incentive os alunos a manter diários onde possam escrever sobre os livros que estejam lendo. Isso conecta a leitura à escrita, de modo natural.
Oficinas de escrita: Organize oficinas em que os alunos possam compartilhar seus textos, receber feedback dos colegas e do professor, e trabalhar na revisão e na edição.
Projetos multidisciplinares: Colabore com professores de outras disciplinas para criar projetos que envolvam a escrita – por exemplo, um projeto de ciências, a fim de que os alunos escrevam relatórios de experimentos.
Uso de tecnologia: Utilize ferramentas digitais para estimular a escrita colaborativa, como documentos compartilhados online.
Escrita criativa: Proporcione oportunidades para a escrita criativa, como contar histórias a partir de imagens ou continuar uma história iniciada pelo professor.
Correspondência escrita entre alunos: Organize trocas de cartas ou e-mails entre alunos de diferentes turmas ou escolas, promovendo a escrita com um propósito real de comunicação.
Mural de escrita: Crie um espaço na sala de aula onde os alunos possam expor seus melhores trabalhos escritos.
Autorreflexão: Incentive os alunos a refletirem sobre seu próprio processo de escrita, identificando pontos fortes e áreas para melhoria.
Celebração da escrita: Organize eventos, como saraus literários ou feiras do livro, onde os alunos possam apresentar suas produções escritas para a comunidade escolar.
Rodrigo: Essas são estratégias realmente valiosas, professora Ana! Para finalizar, que conselho a senhora daria aos educadores que estejam enfrentando os desafios de ensinar escrita no atual contexto educacional?
Ana Loureiro: Meu conselho principal é: mantenham-se aprendizes. O mundo está em constante mudança, e as formas de comunicação escrita evoluem rapidamente. É fundamental que os educadores estejam sempre abertos a aprender, seja com seus pares, com pesquisas acadêmicas ou até mesmo com seus alunos. Além disso, não subestimem o poder do afeto no processo de ensino-aprendizagem. Quando os alunos sentem que são valorizados e que suas ideias são importantes, eles se tornam muito mais dispostos a se expressar através da escrita. Por fim, lembrem-se sempre de que estamos formando não apenas escritores, como também cidadãos. A escrita é uma ferramenta poderosa de expressão, reflexão e transformação social. Ao ensinarmos nossos alunos a escrever bem, estamos dando a eles a capacidade de se fazerem ouvir, de argumentar, de criar e de mudar o mundo ao seu redor.
Rodrigo: Professora Ana Loureiro, muito obrigado por essa entrevista tão rica e tão inspiradora. Tenho certeza de que nossas conversas impactarão positivamente muitos educadores e, consequentemente, inúmeros alunos em todo o país.
Ana Loureiro: Eu que agradeço a oportunidade, Rodrigo. Foi um prazer compartilhar experiências e reflexões com os leitores da Revista Redigir.
Nota ao leitor: Esta entrevista faz parte de uma série especial da Revista Redigir sobre práticas pedagógicas inovadoras. Para aprofundar ainda mais neste tema, convidamos você a ouvir a versão completa desta conversa com a professora Ana Loureiro no podcast Aula Magna Redigir.