Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no
drama, no discurso político, a dor do operário está na sua blusa azul, de pano
grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Este é um
homem comum, apenas mais escuro que os outros, ecom uma significação estranha no corpo, que
carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não
sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o
grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário
não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam
da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados,
o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali
corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário?
ANDRADE, Carlos Drummond de. O operário no mar. In:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro:
Livraria José Olympio Editora, 1973. p. 47. Fragmento.
COMANDO: A partir não apenas da coletânea de apoio, como também de seus
conhecimentos construídos ao longo dos estudos, escreva um CONTO SOCIAL sobre o
tema: “Quando a cidade ignora seus trabalhadores”. Aborde a
percepção do protagonista sobre o contraste entre riqueza de certas regiões da
cidade e as condições precárias da vida daqueles que trabalham para mantê-las em
funcionamento.