Durante
alguns meses, eu fui o guri todo sujo de argamassa usando um havaianas
remendado com prego que aparecia caminhando no meio dos alunos, indo comprar
refrigerante. Durante alguns meses, eu fui o intruso que andava encolhido, com
vergonha, por entre os prédios da universidade. Durante alguns meses, eu fui o
pobre-diabo que passava por ali e que imaginava, com razão ou não, ser o alvo
de toda e qualquer gargalhada que soasse à sua passagem. Durante alguns meses.
Toda manhã. Perto do meio-dia.
Quando o
galpão finalmente ficou pronto, eu dei graças a Deus. Creia-me, leitor: não
existe ambiente mais hostil para um pé-rapado do que um ambiente acadêmico. É
impossível ficar à vontade. Nada ao redor traz sensação de conforto, nada ao
redor lembra minimamente as vielas e os barracos que estamos acostumados a ver
à nossa volta, ninguém ao redor nos desperta a mínima sensação de identificação
ou nos inspira empatia, é todo mundo pálido demais, é todo mundo civilizado
demais, é todo mundo bem-vestido demais, é todo mundo sem ginga, é todo mundo sem
suingue, é todo mundo tão diferente de nós, e em tantos sentidos! Eu dei graças
a Deus quando o galpão finalmente ficou pronto e eu soube que não precisaria
mais ir comprar refrigerante no meio dos universitários.
Fiz uma
promessa boba para mim mesmo naquele dia: quando eu voltasse àquele ambiente,
seria como estudante de letras. Jurei para mim mesmo, tendo como testemunha o
matagal que circunda aqueles prédios: em nenhuma circunstância eu voltaria ali,
exceto como estudante de letras. Ou bem eu voltava como estudante de letras, ou
bem não voltava jamais.
FALERO, J. Mas em que mundo tu vive? São Paulo: Todavia, 2021, p. 57-58.
[Adaptado]
Texto II
Estudo mostra como
cotas impulsionaram o acesso às universidades públicas
CNN - 22/05/25
Implementada
em 2012, a política de cotas, que destinou 50% das vagas aos cotistas, aumentou
o ingresso de pessoas negras, pardas, indígenas, com deficiência e oriundas de
escolas públicas nas universidades. Os dados, organizados pelos sociólogos Luiz
Augusto Campos e Márcia Lima, fazem um panorama de como era o cenário antes e
depois da política. Se até o final dos anos 1990 o ensino superior brasileiro
era dominado por estudantes brancos e de classes médias e altas, hoje o cenário
é outro: em 2021, estudantes pretos, pardos e indígenas já representavam 52,4%
dos matriculados nas universidades públicas, frente aos 31,5% em 2001. No mesmo
período, a presença de alunos das classes D e E também saltou de 20% para 52%,
evidenciando a dimensão econômica da mudança.
Disponível em:
<https://www.cnnbrasil.com.br/educacao/estudo-mostra-como-cotas-impulsionaram-o-acesso-as-universidadespublicas/>.
Acesso em 01 set. 2025. [Adaptado]
PROPOSTA 2: Escreva uma crônica sobre
as dificuldades de um estudante proveniente das classes populares para acessar
e permanecer na universidade pública. Não assine seu nome (sic).