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DISSERTAÇÃO
ARGUMENTATIVA – MODELO UFSC - ID: PJD
QUANDO
TUDO PRECISA SER ÚTIL
Texto I
A maioria das pessoas não sabe existir sem ser útil. O valor próprio foi
colonizado por tarefas, funções, entregas. Ser bom amigo, bom funcionário, bom
filho, bom par — tudo mediado por performance. Mesmo o amor é oferecido com a
esperança secreta de retorno. O afeto virou investimento com expectativa de
lucro emocional. E quando o sujeito não está rendendo — nem profissionalmente,
nem afetivamente — o vazio se instala. Como se a simples presença não bastasse.
Como se fosse preciso se justificar o tempo todo por estar vivo. Esse modo de
subjetivação começa cedo. Crianças elogiadas apenas quando “ajudam”,
adolescentes valorizados pelo que produzem, adultos reconhecidos pelo que
oferecem. O sujeito se forma como um prestador simbólico de serviços. E, com o
tempo, passa a temer momentos em que não pode — ou não quer — ser útil. Evita
repouso, vulnerabilidade, silêncio. A inutilidade vira quase uma obscenidade
moral. Quem não serve, parece que sobra. E quem sobra, parece que falha. Na
clínica, isso se traduz em culpa crônica. Pessoas que não sabem tirar férias,
que sabotam o próprio descanso, que transformam até o prazer em obrigação.
Projetos pessoais viram tarefas, relações viram planilhas, a vida vira gestão.
O sujeito vive tentando provar que merece estar aqui. Que faz sentido ocupar
espaço. Que entrega valor. E, no fundo, nunca acredita de fato nisso. Porque o
critério é sempre externo. E o olhar do outro, insaciável. A cultura do
desempenho aprofunda esse mal. Ser “multifuncional” virou elogio. Estar sempre
disponível é sinal de comprometimento. Mas ninguém pergunta o custo psíquico de
viver assim. O sujeito útil demais se anula. Se evapora na entrega. E quanto
mais dá, menos resta. Porque tudo foi investido na tentativa de ser necessário.
E ser necessário é o oposto de ser livre.
Disponível em: https://torresmotorres.substack.com/p/a-moral-da-utilidade-por-que-desaprender.
Acesso em 28 set.2026.
Texto II
A escola me trazia uma profunda sensação de perda de tempo. O que eu
queria mesmo era desenhar histórias em quadrinhos, cantar, tocar com uma banda.
Em uma boa parte do meu tempo nessa fase da vida, foi exatamente o que fiz. O
conflito estava armado. Minha curiosidade me atraia para essas atividades como
se fossem o campo gravitacional de um buraco negro. Eu só pensava nisso, me
ocupava completamente de livros, revistas em quadrinhos, discos, entrevistas e
tudo mais que eu pudesse agarrar. E, ao mesmo tempo, me afastava cada vez mais
das minhas obrigações com a escola. [...] Então, a situação era assim: de um
lado, aquilo que eu genuinamente achava útil e importante. Do outro, aquilo que
a minha família e a sociedade liam como indispensável. Invertendo a
perspectiva, cada um achava a prioridade do outro absolutamente inútil.
Corta para uns 10 anos depois e eu estou em São Paulo, vivendo da minha
escrita.
Ali estava eu, utilizando todo o conhecimento “inútil” que aprendi com
aquela professora. Ao mesmo tempo, utilizei ao longo da minha vida, de forma
direta ou indireta, praticamente tudo que absorvi nas minhas experimentações
artísticas de adolescente, seja fazendo conexões em textos ou lembrando de como
resolvia certos problemas criativos e aplicando na minha rotina de trabalho. Em
resumo, nesse meu conflito adolescente, todos nós estávamos certos e errados ao
mesmo tempo. [...]
Como adultos, cada vez mais ouvimos que o nosso tempo tem de ser bem
gasto, que precisamos de foco, de um objetivo claro, que devemos otimizar
nossos ganhos. É raro nos darmos a liberdade de dedicar tempo sem saber muito
bem qual o fim da jornada. Se é pra fazer um curso, que seja para algo que
adicione algo à nossa carreira, ou que nos ajude a cumprir com as nossas
obrigações do dia-a-dia. De preferência, é importante que possa virar algo que
dê dinheiro. [...]
E o que é o pensamento criativo se não a capacidade de trazer soluções
para contextos onde elas não são esperadas? Muitas vezes nos pegamos
negligenciando algumas escolhas que faríamos por curiosidade ou afinidade em
prol dessas atividades 100% utilitárias. Mas nem tudo é ou deveria ser sobre
utilidade. [...] Não é necessário encontrar uma utilidade pra nossa alegria de
saborear o mundo. Nem tudo precisa ser prático. Nem tudo precisa ser decisivo.
Nem tudo precisa ser útil.
RIBEIRO, Luri. Disponível em: https://luri.substack.com/p/nem-tudo-precisa-ser-util.
Acesso em 29 set.2026.
Texto III
Não se come dinheiro. [...] O amanhã não está à venda. [...] Governos
burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que
os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco,
qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que a economia é mais
importante é como dizer que o navio importa mais que a tripulação. Coisa de
quem acha que a vida é baseada em meritocracia e luta por poder. Não podemos
pagar o preço que estamos pagando e seguir insistindo nos erros. Michel
Foucault tem uma obra fundamental, Vigiar e punir, na qual afirma que essa
sociedade de mercado em que vivemos só considera o ser humano útil quando está
produzindo.
KRENAK, Ailton. Disponível em: https://www.ufrgs.br/observaeducampors/wp-content/uploads/2023/06/Ailton-Krenak-A-Vida-Nao-E-Util-2020.pdf.
Acesso em 17 set.2026. Trecho selecionado.
COMANDO: Escreva uma dissertação
argumentativa sobre o tema: “Quando tudo precisa ser útil”.