SETEMBRO, 2026.
"Repertório de bolso", também chamado de repertório coringa, é aquele empregado de maneira automática e genérica, sem uma relação efetiva com o tema proposto. É um verdadeiro quebra-galho: o candidato memoriza uma citação, uma fragmento filosófico, um conceito ou uma teoria e, com habilidade, consegue encaixá-lo em qualquer tema - com isso, ele tem a ilusão de ter cumprido a exigência de apresentar repertório sociocultural na Competência II da dissertação argumentativa do ENEM.
Alto lá! Não é bem assim!
O ENEM não pretende simplesmente verificar se o candidato decorou referências de História, Literatura, Filosofia, Sociologia ou Atualidades. O que se espera é que ele saiba mobilizar determinado conhecimento ao tema então proposto. Essa capacidade de relacionar conhecimentos ao recorte temático é, de fato, uma demonstração de conhecimento — muito diferente da simples reprodução de uma referência memorizada.
Observe a conhecida afirmação de Thomas Hobbes, filósofo inglês, segundo a qual “o homem é o lobo do homem”. Ela pode ser articulada a diferentes assuntos. Em uma redação sobre desemprego, por exemplo, o “lobo” pode ser associado à concorrência entre trabalhadores. Em outra, sobre obsolescência programada, pode representar a própria dinâmica do mercado que prejudica o consumidor. Até mesmo em um texto sobre depressão, alguém poderia transformar o “lobo” em metáfora para o sofrimento provocado pela doença.
Nos três casos, porém, há um problema: Hobbes não escreveu sobre nenhum desses assuntos. Aí está o risco do repertório de bolso: a referência é legítima, parece sofisticada e pode até estar muito bem encaixada no texto, mas funciona como um enfeite teórico ou um argumento coringa. Em vez de revelar que o candidato compreende e mobiliza conhecimentos para enfrentar uma questão específica, revela que ele encontrou uma fórmula mágica para levar os 200 pontos na C3.
Desse modo, insistimos, repertório legitimado não é automaticamente repertório pertinente nem produtivo. Conhecer uma obra, uma teoria ou uma citação é importante; saber quando, por que e como mobilizá-la é que demonstra domínio do conhecimento. O repertório mais forte não é necessariamente o mais famoso, mas aquele que estabelece uma relação consistente com o recorte temático e ajuda a sustentar a discussão.
Dica: antes de usar uma referência, pergunte: O que, exatamente, esse conhecimento tem a ver com o tema? Se a pergunta puder ser respondida de modo inequívoco e justificável, o repertório é/está pertinente. Por sua vez, se ele puder ser transferido, quase sem alteração, para uma série de temas diferentes, atenção: você pode estar diante de um repertório de bolso.
É por isso que repertório não se resume a uma coleção de referências. É necessário compreender a proposta, definir um caminho de abordagem, selecionar o que realmente contribui para a discussão e desenvolver as ideias com precisão. Cada texto produzido é, portanto, uma oportunidade de experimentar escolhas, perceber o que funciona, rever estratégias e tornar a argumentação mais consistente. Mais do que demonstrar que conhece muitas referências, escrever bem é saber o que fazer com aquilo que se conhece.
No entanto, o fato de o repertório ser bem conhecido, necessariamente, não o invalida. Imaginemos a letra da banda Legião Urbana "Que país é esse?" Está claro a questão levantada por Renato Russo pode, em determinado contexto, servir de repertório para temas voltados à democracia, desigualdade social, corrupção etc., etc. Mas é possível, sim, valer-se desse fragmento conhecido e torná-lo pertinente e produtivo - basta explorá-lo, entranhá-lo ao texto (e não apenas citá-lo).
Vejamos a introdução sobre o tema: Caminhos para acabar com a corrupção e fortalecer a democracia brasileira.
Em 1987, quando a banda Legião Urbana lançou a letra "Que País É Esse - Nas favelas, no senado/ Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a constituição", nem mesmo Renato Russo poderia prever que as críticas a um país marcado por problemas socioeconômicos de grande proporção se estenderiam décadas afora. Sem dúvida, a contestação permanece atual quando se observa a corrupção, prática que compromete a confiança nas instituições e enfraquece a democracia brasileira. Nesse cenário, combater a questão exige mais que punições pontuais. Assim, é preciso não só fortalecer os mecanismos de transparência e fiscalização, como também ampliar a participação cidadã no acompanhamento da vida pública. Desse modo, o enfrentamento da corrupção depende tanto da efetividade institucional quanto do compromisso da sociedade com a democracia.
Perceba que, para a introdução, o dissertador selecionou cirurgicamente os versos que acenam à corrupção, notadamente "sujeira pra todo lado", para depois, explorar e atualizar o repertório, ou seja, trazê-lo para o contexto socioeconômico contemporâneo.
Não resta dúvida: o repertório da banda Legião Urbana, bem conhecido, conectou-se perfeitamente ao tema.
✍️ Mãos à obra! Há muito o que ler, pensar e escrever!
CONHEÇA A PROPOSTA DE DISSERTAÇÃO SOBRE O TEMA: Mídia e adultização – consequências da perda irreparável da infância. (Há redação-modelo). Acesse:
Ótimas redações!
Prof.ª Gislaine Buosi
Produção e Curadoria de Conteúdo