Como uma rede usou gestão escolar orientada por dados em Redação para reduzir a desigualdade de desempenho entre unidades e levar 90% dos alunos a aproveitamentos acima de 70% — do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.
Rodrigo Simões e Lucca Carvalho conversam com Paulo Rogedo, gestor de escolas da Inspetoria São João Bosco da Rede Salesiana do Brasil, sobre cinco anos de parceria com a Redigir e os resultados alcançados em redação em 11 unidades escolares.
O que acontece quando uma rede de escolas decide tratar a produção de texto com a mesma seriedade com que trata qualquer outro indicador de gestão? A Inspetoria São João Bosco tem a resposta — e os dados para mostrar.
Ao longo de cinco anos de parceria com a Redigir, a inspetoria foi do diagnóstico inicial à construção de um processo de gestão escolar orientada por dados em Redação que impactou alunos do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, em realidades socioeconômicas muito distintas. O resultado mais significativo não foi uma nota mil pontual no ENEM — foi mover a curva inteira: reduzir o número de alunos nas faixas mais baixas e concentrar a maioria na faixa entre 80 e 90% de aproveitamento.
O ponto de partida: gestão escolar orientada por dados em Redação como aposta estratégica
Quando Paulo Rogedo chegou à Inspetoria São João Bosco, o diagnóstico era claro: o histórico em produção de texto não era bom. As unidades tinham cargas horárias diferentes para a disciplina, sem um mínimo padronizado. Os dados existiam, mas ficavam soltos e desconexos — sem uma plataforma que os agrupasse, sem linha de tempo, sem capacidade de comparação entre unidades.
A primeira decisão estratégica foi simples, mas poderosa: padronizar uma carga horária mínima para produção de texto em todas as unidades. Independentemente do contexto socioeconômico de cada escola, todos os alunos teriam a mesma condição básica de trabalho com a escrita.
O segundo movimento foi buscar uma plataforma que entregasse o que nenhuma outra no mercado entregava naquele momento: a possibilidade de acompanhar a produção de texto de forma personalizada por aluno, com dados históricos em linha de tempo e com capacidade de gerar insumos para tomada de decisão pedagógica. A escolha foi a Redigir.
“A gente queria Redigir não só pelo conceito do trabalho proposto, mas pela possibilidade de acompanhar isso de uma maneira que no mercado até então não existia.”
O desafio de uma gestão escolar orientada por dados em uma rede com 11 unidades
Gerenciar dados pedagógicos em uma rede não é o mesmo que gerenciá-los em uma escola única. São dezenas de diretores, coordenadores, professores com perfis e histórias diferentes — e realidades socioeconômicas que vão de unidades em cidades com maior ou menor infraestrutura.
O processo de implantação não foi isento de atrito. No início, havia resistência de professores que sentiam que a plataforma vinha tomar o lugar deles ou gerar mais trabalho. Essa resistência foi sendo vencida à medida que os dados começaram a aparecer — quando o professor passou a ver a curva de evolução da sua turma, a identificar os desvios recorrentes e a entender que tinha, pela primeira vez, instrumentos concretos para intervir de forma precisa.
Como os dados são usados na prática: da rede ao professor
Quando a Redigir entregou o relatório consolidado dos cinco anos de parceria, Paulo Rogedo deu publicidade imediata ao documento — internamente para toda a equipe e externamente para a liderança da Rede Salesiana. A premissa que orienta esse movimento é direta: dado bom é dado público. Informação retida como instrumento de poder não serve à escola.
A apresentação aos professores foi cuidadosa: o objetivo não era fazer um ranking entre unidades, mas colocar dados comparativos na mesa e perguntar, com honestidade, o que uma escola estava fazendo diferente da outra e o que podia ser replicado. Escolas com ponto de partida mais baixo naturalmente registraram crescimentos percentuais maiores. Escolas que já tinham bom desempenho precisam agora trabalhar refinamentos que demandam outro nível de precisão.
A meta como referência
Um dos elementos que estruturou o trabalho da inspetoria foi a definição de uma meta coletiva clara: média acima de 800 pontos em redação no ENEM — mais precisamente, 805 pontos — para todas as unidades, independentemente da modelagem pedagógica de cada escola. Ter esse número na mesa transformou a conversa: em vez de melhorar de forma difusa, a rede passou a trabalhar em direção a um objetivo mensurável e compartilhado.
Os resultados: equidade e excelência
O resultado mais relevante dos cinco anos de parceria não é o mais óbvio. Não é a nota máxima pontual no ENEM — é o movimento da curva inteira. Antes da parceria, havia uma parcela expressiva de alunos abaixo de 70% de aproveitamento. Ao longo dos anos, essa faixa foi diminuindo progressivamente. Hoje, 90% dos alunos da inspetoria estão acima de 70% de aproveitamento em redação.
Mais do que isso: os alunos que estavam acima de 70% migraram para as faixas de 80 e 90. A concentração de desempenho está agora exatamente onde a rede queria — com uma distribuição que representa uma melhora real, coletiva e sustentável, não resultado de dois ou três casos excepcionais que elevam a média enquanto o restante permanece estagnado.
O dado mais significativo vem das unidades menos privilegiadas. Foram exatamente essas escolas — com alunos em contextos socioeconômicos mais vulneráveis — que registraram os maiores crescimentos. O aluno de Jacarezinho, que tem acesso à mesma estrutura de produção de texto que o aluno de uma unidade com mais recursos, conseguiu avançar e chegar à qualidade que antes era privilégio de poucos.
Gestão escolar orientada por dados em Redação além do ENEM
Um ponto que Paulo Rogedo faz questão de sublinhar é que o trabalho da inspetoria não se resume à preparação para o ENEM. O trabalho vai do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º do Ensino Médio — com toda a complexidade de se desenvolver a habilidade escritora em seus mais variados gêneros ao longo de anos de escolaridade.
A escrita não é apenas uma ferramenta de acesso ao ensino superior. É parte do projeto de vida do aluno. Saber escrever bem é uma condição para que esse jovem possa fazer escolhas mais conscientes, navegar melhor no mundo e contribuir de volta para a sociedade. O ENEM é uma etapa desse caminho — não o destino.
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